Cenas* 1


Pé com bolhas era sua identidade flagrada
Ardência pura

E aqueles saltos ridículos com som de cavalgada
a fizeram tropeçar 23 vezes.
nem menos nem mais.

No inicio buscara a elegância de quem enxerga o mundo de cima
O nariz que respira ares elevados
A sensação panorâmica.

Com os muitos passos trotados
Sua identidade se transformara em pés inchados
inflamadas bolhas que nasciam dentro de antigas bolhas 
outrora estouradas.

Era agora dois pés ferventes
e a tentativa de manter um equilibrio que minimizasse os apelos.

A lida não parava e o cumprimento do percurso proposto inadiável.

Lá fora um por-do-sol de fotografia única
clima ameno de distâncias dilatadas.
E um ser por ela escolhido como alvo de amor
que alternava entre a contabilidade das quedas, 
risadas e levianos franzires de cenho.

Por dentro os pés em chamas.
Por fora as lágrimas.
Por dentro o escárnio, auto-censuras por render-se a estas vaidades de infância.
Por fora o volume ridículo que enformava.

Naquele salto todo ficou pequenina 
sem qualquer referencial de prumo.

Queria ficar sem pés
sangrar plantada no asfalto quente daquele dia morno.

Retirou os cascos em plena avenida
Sua carne aberta ao piche.
Derretidas as bolhas entre rupturas
no negrume grafite áspero 
suspirou. 

Comentários

Rafael disse…
HAHAHAHAHAHA....maravilha!
Rafael disse…
hahahaha
Unknown disse…
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Daniela Mendes disse…
A gente logo vê quando alguém cai nas garras de Cortazar. Aposto que tem Henry Miller nesse bolo aí também... :)
Renata disse…
O Miller está na lista dos próximos a serem lidos.
Ainda não o conheço, mas Cortázar lubrifica sempre.